Obras de arte estão expostas por todo o terreno da Usina. Foto: Lucas Oliveira

Aos 50 anos de idade, o carpinteiro Manuel Miguel da Silva, mais conhecido como Seu Bal, não imaginaria que a madeira poderia oferecer mais que a possibilidade de criar móveis. Trabalhando há mais de 25 anos na Usina Santa Terezinha, localizada no município de Água Preta, Zona da Mata Sul de Pernambuco, ele se deparou com o desejo de fazer algo a mais e usou a arte como forma de expor todas as criações que estavam guardadas na cabeça. “Sempre via que sobrava alguns pedaços de madeira e um dia pedi as sobras para fazer algo. Na hora que comecei a mexer, fui imaginando no que eu poderia fazer e fui criando. Fiz duas peças e já guardei material para a próxima”, afirma.

O local que aposta na arte como caminho para a transformação social é endereço de oficinas e cursos artísticos gratuitos oferecidos aos moradores dos municípios vizinhos durante todo o ano, e, deste 2015, marca novembro como o mês do Festival Arte na Usina, evento que reúne artistas nacionais para oferecer workshop, shows, performances, mesas de discussão, exibição de filmes, palestras e exposições. “Queremos criar um pólo de arte que possa, além de gerar educação, desenvolver a cultura, produção e a economia da cidade. É provocar o poder criativo que essas pessoas já têm e, nesse curto espaço de tempo, já conseguimos ter respostas positivas desse trabalho”, afirma Bruna.

Com curadoria dos artistas Fábio Delduque, nome à frente do Festival de Serrinha, e José Rufino, e idealização e produção de Bárbara Maranhão, Ricardo e Bruna Pessoa de Queiroz, o projeto acontece de 11 a 20 de novembro. Na programação, nomes como Ronaldo Fraga, Laura Vinci, Hugo França, Helder Vasconcelos e outros irão ministras as ações. “Eu, particularmente tenho uma crença muito profunda na criação e produção artística, seja ela mais erudita ou voltada para a cultura popular, como mecanismo de educação e transformação de uma pessoa”, destaca Rufino.

As inscrições acontecem no site do evento e, quem preferir dormir no local, a organização sinaliza na página as hospedagens no estilo “pousada domiciliar”, oferecida por moradores locais. “Quem quiser ir pela manhã e voltar ao final do evento, vamos disponibilizar um micro-ônibus que ficará estacionado no RioMar Shopping”, explica Ricardo. A passagem de ida e volta custará R$ 10.

Veja aqui a programação.

A Usina

Fundada em 1929 por José Pessoa de Queiroz, a Usina Santa Terezinha há mais de 15 anos deixou de moer cana de açúcar para fazer da arte um meio de incentivo a produção cultural. Proporcionando experiências educativas por meio de atividades e manifestações artísticas, como a Escola de Música que funciona diariamente e atende mais de 50 alunos, as ações atraem principalmente moradores do vilarejo de Santa Terezinha e dos municípios próximos, como Xexéu, Palmares e Catende.

O lugar, que possui cerca de sete mil hectares de terra, almeja ainda oferecer um processo de residência artística mais profunda. Alguns artistas, como José Rufino e Hugo França, já iniciaram a atividade. Nomes como Paulo Meira, Paulo Bruscky, Marcelo Silveira e Márcio Almeida estão no processo há três meses. “Eles estão aqui através de um convênio com o MAMAM (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães) realizado em parceria com a Associação Amigos do MAMAM e Associação Jacuípe. A ideia é que os projetos que eles idealizarem para o local sejam produzidos na Usina e agreguem os moradores da vizinhança, seja durante a produção ou na execução das obras que, inclusive, ficarão aqui”, pontua Bárbara Maranhão.

Um dos projetos de residência é a Rádio Catimbó Museu da Usina, de Paulo Meira. Totalmente permeável, a rádio ficará aberta e será um suporte para que os habitantes das cidades possam realizar programações artísticas utilizando como meio de informação e formação de conteúdo. “Acabei de voltar de uma residência no Rio de Janeiro e lá nós implantamos a rádio Catimbó Colônia e resolvi dar continuidade aqui. Essa experiência de imersão, principalmente quando tem uma influência social colocando a arte como transformador e cuidador, é ainda mais enriquecedor”, ressalta Paulo Meira.

Com a ideia de criar um acervo de arte contemporânea, as obras produzidas pelos artistas irão compor principalmente o Jardim Botânico, projeto assinado pelo paisagista Eduardo Gonçalves e executado pelo também paisagista Luciano Lacerda, da Villa Garden Paisagismo. “São 29 hectares que terá mais de 30 mil espécies de grande porte. Atualmente, já existe 3,5 mil espécies plantas. Todas elas são nativas do Brasil e o espaço servirá tanto para pesquisar científicas quanto para experiências educativas”, explica Luciano. Atualmente, já existem mais de 20 obras de arte espalhadas pelo local.

[VÍDEO] A Revista SIM! foi até o local para conhecer o projeto. No vídeo, José Rufino (curador) e Bruna Pessoa de Queiroz (produtora do evento), falam um pouco sobre o festival que ressignifica a Região.

Festival Arte na Usina
Acontece na Usina Santa Terezinha, em Água Preta
De 11 a 20 de novembro, das 9h às 21h
Inscrições e Informações: www.usinadearte.org