#SIM52 Janete Costa

Textos: Paula Delgado, Flaviano Quaresma e Ariella Dias.

Vivências

Janete Costa foi a capa da #SIM52 (Foto: Eudes Santana).

Quando a praticidade alia-se a um olhar requintado, o resultado não poderia ser outro se não um arquiteto de mão cheia. E é da atividade incessante da mão e da mente de Janete Costa que nasce toda a criatividade desta artista multi-função. Prestes a completar setenta e cinco anos, e se recuperando de uma doença, ela simplesmente não consegue parar, como comprova esta entrevista, feita entre um projeto e outro, entre uma viagem e mais uma, entre seu escritório em Boa Viagem e sua acolhedora casa em Olinda.

No dia 03 de junho de 1932 nascia Janete Costa. Filha de Garanhuns, agreste pernambucano. Primeira arquiteta da família. Cresceu tendo que enfrentar as dificuldades peculiares de uma família de classe média. Aos 21 anos, seus pais se mudaram para o Rio de Janeiro, o que a fez transferir os estudos para o Sudeste e concluir o curso de arquitetura na Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro.

Lá se viu ainda mais perdida, por não conhecer ninguém da área. Mas para Janete, isso nunca foi problema. O primeiro passo foi ganhar experiência e a confiança de seus clientes. Passou anos aplicando o olhar espacial e crítico em eventos pequenos, como festas infantis, ou mesmo vitrines de lojas, o que ela chama de laboratórios. Não cobrava nada pelo trabalho. Cinqüenta anos se passaram e, na lembrança, o orgulho de quem aprendeu vivendo novos desafios. Muitos acharam que ela estava sendo explorada, mas para ela a experiência valia qualquer sacrifício.

Assim que se sentiu um pouco mais segura, abriu uma loja de decoração para expor os produtos. Mas confessa que nunca gostou da área de comercialização, diferentemente de sua família Ferreira Costa, cujo sobrenome está diretamente atrelado ao setor de lojas em Pernambuco. O fascínio de Janete sempre foi conseguir dar uma utilização à matéria, construir algo que fique para a eternidade. Ela descobriu que poderia satisfazer essa vontade unindo arte popular e arquitetura de interiores. Esse interesse a fez procurar o curso de Planejamento de Interiores do Instituto Joaquim Nabuco, no Recife.

Janete costuma ter sucesso em suas andanças. E fica feliz ao recordar-se que nunca esteve sozinha ao enfrentar cada barreira. Sempre fez questão de carregar com ela quem estava por perto e quem demonstrava vontade de trabalhar.

Trabalho… Palavra que para Janete indica evolução. De forma bastante simples, não tem receio de dizer que não gosta de gente preguiçosa: “Ajudo todo mundo, desde que queira ser ajudado e seja esforçado”.

Foi no Rio de Janeiro que ela se casou pela primeira vez e teve três filhos que, segundo ela mesma, nasceram embaixo da prancheta, porque mais uma vez Janete não conseguia parar de trabalhar. Passou todos os nove meses de gravidez “esquentando a barriga na prancheta”. “O descanso de minha gestação era voltar aos projetos. Aí sim eu ficava tranquila”, compartilha. Com Acácio Gil Borsoi, arquiteto renomado e seu ex-professor, casou-se em 1968. Com ele, teve Roberta. Dos quatro filhos, três – Cláudia, Mário e Roberta – são arquitetos. Lúcia não optou por arquitetura, mas também não se distanciou tanto do talento da mãe: lida com arte, é proprietária de uma galeria no Recife – Amparo 60. Em se tratando de netos, dos cinco, dois já enveredaram pelo caminho da avó e estudam Arquitetura.

O ambiente da casa da arquiteta em Olinda, PE (Foto: divulgação).

Ela não pára quieta. Para se ter uma ideia, mantém um escritório de arquitetura no Rio e outro aqui no Recife. Também distribui seus utensílios em três residências diferentes: Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Atualmente está se esforçando por ter uma base mais sólida, porém as viagens continuam sendo uma constante em sua vida. Certa vez, chegou a dizer que morava mais na Varig do que em qualquer outro lugar.

A mais recente decisão foi trocar o Rio de Janeiro por Pernambuco, ou melhor, por três casas conjugadas (uma paixão particular), que Borsoi planejou há 38 anos, na Cidade Alta de Olinda. Ela lembra que eles compraram essas casas praticamente em ruínas, eram apenas fachadas.

Nada de “tudo em seu devido lugar” e “cada estilo de arte em um recanto da casa”. Ao contrário. Como uma boa arquiteta de interiores, ela gosta de manter a arrumação da casa acompanhando o estilo dos donos, e sem paranoias de ter que prezar pela extrema organização.

Fala com o maior prazer que cada dia que um amigo a visita, encontra os móveis e as peças de arte numa posição diferente. Janete prova que é possível usar objetos de arte popular na decoração do ambiente mais importante de uma casa, numa sala, por exemplo, de forma digna, convivendo em perfeita harmonia com outros objetos de arte já consagrados.

É responsável por centenas de projetos de interiores, ambientação de residências, prédios públicos, escritórios empresariais e hotéis, executados no Brasil e em países como Portugal, França, Estados Unidos e China.

Diversas vezes já esteve no foco da mídia nacional e também internacional. Há dois anos foi homenageada com uma matéria especial pela revista italiana Interni. No ano passado recebeu a Medalha Montes Guararapes, do Governo de Pernambuco, a medalha João Ribeiro, da Academia Brasileira de Letras, e uma belíssima homenagem na Casa Cor Rio de Janeiro e Pernambuco. Janete foi lembrada por seu pioneirismo ao acreditar na força da cultura popular há mais de 40 anos.

Não é para menos que a arquiteta é considerada a principal responsável pela introdução do artesanato na decoração de grandes hotéis ao longo de todo o Brasil. É a este ramo de atuação que Janete Costa mais tem se dedicado. O trabalho de valorização do artesanato brasileiro – aqui e lá fora.

Mais uma vez, entra em cena o olhar aguçado da profissional, da arquiteta. Ao tentar, criar um design personalizado para cada tipo de projeto, Janete cria oportunidades de trabalho para comunidades pobres, principalmente no Nordeste. Assim, ela conseguiu uma fórmula de usar a arquitetura em prol do social. “È um trabalho de cunho social, mas que garante uma atividade econômica ao artesão e sua família” completa Janete. Sempre que encontra uma oportunidade, tenta complementar seus projetos com obras de artistas brasileiros, de forma harmoniosa. Trabalho que já se tornou uma marca registrada da arquiteta, elevando o status da peça ao título de “Arte Popular Brasileira”.

Janete tem feito um trabalho muito didático na Paraíba. Há dois anos ela está à frente da Casa do Artista, e durante este tempo já conseguiu boas parcerias para os artesãos de lá, inclusive patrocínios do Banco Real e do Sebrae, que tem sido grandes incentivadores da arte popular. O objetivo é valorizar a produção nacional, contribuindo para ampliar as oportunidades de negócios para artesãos, principalmente em comunidades de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

A casa de Janete Costa, em Olinda (Foto: divulgação).

“Eu quero entrar no anonimato e fazer os artesãos dessas comunidades mais esquecidas saírem do anonimato”Sem impor nada ao trabalho dos artesãos, profissionais que costumam reproduzir repetidas vezes a mesma peça em função da necessidade. De forma espontânea faz com que eles próprios percebam a vantagem de colocarem em prática a interferência sugerida por Janete. Ela apenas procura uma maneira de melhorar o trabalho deles. Mas para isso, é necessário que eles estejam interessados em evoluir, em serem inseridos socialmente, em ser colocado no mercado nacional, e até mesmo no internacional. Eles passam a se sentir mais úteis e motivados. E já está comprovado: a elevação da auto-estima se reflete diretamente no resultado do produto final. Ela reforça: “Bastam pequenas interferências e sugestões para que depois possam surgir trabalhos lindos, mais adequados ao uso e à exportação”.

Com ela, o artista popular é diferente. Eles já se encontram num estágio mais avançado. Deixaram de ser artesãos para desenvolver uma arte própria. O trabalho destes, ela não interfere, apenas admira e na medida do possível, ajuda a divulgar. Agora há pouco, apresentou peças de artistas pernambucanos aos donos da H. Stern, uma das mais importantes joalherias do Brasil e que tem representações em mais de dez países. Será uma maneira de divulgar a arte brasileira além-mar.

Em Pernambuco, Janete conhece muito da comunidade e do trabalho desenvolvido por Tracunhaém, a 63 quilômetros de distância do Recife. Num dos mais importantes pólos de cerâmica do Estado, praticamente metade da população sobrevive, direta ou indiretamente, da transformação do barro em peças utilitárias ou em obras de arte. Eram até então trabalhadores anônimos. Mas depois de fazerem parte da equipe de artesãos que trabalham com Janete passaram, a ter uma identidade própria. Algumas peças produzidas nesta cidade inclusive já fazem parte do hall de um dos hotéis mais luxuosos do Brasil no litoral pernambucano.

Na comunidade de Jussaral, próximo ao Cabo de Santo Agostinho, no litoral pernambucano, Janete atua como consultora do projeto “Artesanato Solidário”. Ela os orienta no desenvolvimento do produto e faz a ligação com o consumidor final, para que eles consigam escoar o produto. Aí entra a ajuda que uma pessoa conhecida internacionalmente pode oferecer: devido aos seus inúmeros contatos, na maioria das vezes o artesão já está produzindo uma peça sabendo por quem e com que finalidade a obra será utilizada.

A arte produzida aqui tem valor semelhante à produzida lá fora, porém com um diferencial imenso: o preço. Janete orgulha-se: “Não tenho preconceitos com objetos baratos. Ao contrário, assim que chego numa cidade desconhecida o primeiro passo que dou é em direção à feira livre ou ao mercado público. É lá que eu encontro a verdadeira obra daquele povo”.

Da mesma forma que não costuma dar valor a uma obra de arte pelo preço, ela também não mede esforços para pagar um valor mais alto a uma peça que realmente valha a pena. Para Janete, uma peça de arte sempre foi tida como prioridade entre os seus gastos. Tanto que, em uma de suas andanças pelo mundo, encontrou uma peça de arte sacra do século XVIII. Não hesitou em comprá-la, mas para fazê-lo teve que imediatamente se desfazer de seu único carro. E ficou felicíssima com a troca. Exemplo típico de uma apaixonada por arte.

 

Janete de mil e uma facetas

Depois de boas horas de conversa com Janete Costa, chega-se a uma fácil conclusão. O lado artístico de Janete Costa é extremamente aguçado e, melhor, não é mesquinho. Se ela é excelente na arquitetura de interiores, seu trabalho como curadora de arte popular não fica nada atrás. Mas o que falar de outras atividades que ela tem como hobbies? Saem igualmente bem feitas.

Se é na cozinha, a mão de Janete sempre foi extremamente bem-dotada. Cozinha desde os seis anos de idade. O grande incentivador sempre foi o pai Francisco Ferreira da Costa. Não é a toa que vários amigos pessoais saem por aí elogiando a boa acolhida na casa de Janete e Borsoi. Ela reforça ao admitir que tenta fazer por onde: acha que a gastronomia é uma maneira de reunir bons amigos em torno de uma boa conversa. “Cozinhar é uma forma de hospitalidade, um jeito de juntar gente perto da gente, de mostrar o sabor e a cor daquilo que você faz. A comida é um depoimento que fica no imaginário”. Na noite da entrevista ia receber parentes na sua casa em Olinda, e no cardápio, um prato a base de pato acompanhado de um bom vinho. Um de seus pedidos prediletos é o peixe cozinhado numa autêntica panela de barro.

Como estilista, nada profissional. Mas admite que já desenhou muitas das suas roupas. Muitas vezes, para passar o tempo, já se surpreendeu com um lápis na mão e criando moda. “Faço isso desde menina, principalmente na época em que morava em Garanhuns, quando a vida era mais sacrificada”, lembra. Ou mesmo mais adiante, quando fazia uso de seu talento para inventar fantasias para desfilar nos carnavais de antigamente.

O prazer mais recente, que tem dividido seu tempo entre as atividades profissionais e o hobbie, tem sido a organização e a confecção da exposição “Transparências”. Ao mesmo tempo em que ela é a autora da mostra, também é sua homenageada. A reunião de mais de trinta peças de vidro servirá como um presente de aniversário para comemorar seus 75 anos de muita energia. A data, dia 03 de junho, será comemorada no dia 10 do mesmo mês, do jeito que Janete gosta: arrodeada de parentes e amigos.

Uma das peças da série Transparência, que ficaram expostas na Amparo 60 (Foto: Eudes Santana).

A fixação em vidro vem desde pequena: “Lembro que ficava olhando por muito tempo uma cristaleira de copos antigos de uma amiga de minha mãe, enquanto minhas amigas brincavam no jardim”. Ao longo de mais de cinqüenta anos de vivências, ela começou a juntar pedaços de vidro. Por onde passava, carregava um exemplar ou mesmo comprava um pedaço de vidro velho, que não servia mais. E agora, mais uma vez, ela externa seu talento: quer dar utilidade a objetos até então inúteis. São vidros de todos os tamanhos, formas, preços e cores; nacionais e internacionais. Pedaços de vidros que se transformam em lindos castiçais, móbiles ou simples peças de decoração.

Acompanhada do serralheiro Jair Castro, Janete consegue construir verdadeiras obras de arte. Os vidros, junto ao ferro e ao aço, tomam novas forma e função e tornam-se poéticos quando recebem o colorido das velas e das flores. Poesia que recebe um novo olhar a cada novo contexto em que se insere. Vale a pena conhecer mais esse talento de nossa Janete Costa.


Nas entrelinhas do trabalho em parceria…

NA ARTE

Roberta Borsoi já havia falado que a Janete “tudo que toca vira ouro”. E longe de nós acharmos que isso pudesse ser uma lenda. A verdade é que a nossa vontade sempre foi, desde o primeiro rascunho da pauta desta revista, descortinar, revelar o que se passa nas entrelinhas das relações de parceria (e não são poucas) que a Janete firma com arquitetos, artistas, artesãos e profissionais que trabalham ao seu lado. O deslumbramento é geral, mas o objetivo não é mostrar tanto essa admiração e sim, como são construídas essas relações no dia a dia. Para isso, conversamos com muita gente. O que também revela o grande laço que ata essa profissional ao mundo.

Para começar, fomos até Tracunhaém, Zona da Mata Sul de Pernambuco. Lá, encontramos a artesã Lourdes Gomes da Associação de Artesãos do município (o Associatra). A euforia que a contagiou quando falamos em Janete Costa foi radiante e uma frase vai ficar marcada para sempre durante a entrevista sobre o que a arquiteta disse uma vez para ela: “Você não deve baixar a cabeça, as coisas vão melhorar”, confessa Lourdes. A cidade de Tracunhaém é famosa por sua cerâmica utilitária e figurativa, que começou a partir do repertório de brinquedos que as crianças modelavam com sobras de argila.

Mesmo com alguns projetos para movimentar a economia local, como Imaginário Pernambucano em parceria com o Sebrae, foi criado o Roteiro do Barro com o objetivo de incentivar o turismo, divulgar o artesanato e incrementar as vendas das dezenas de ateliês existentes no município, Lourdes revela que o retorno financeiro não acontece nos 365 dias do ano. “A gente tem que se virar com o que pode. Essa parceria com Janete incentiva um lado do meu trabalho, o criativo, há mais de 6 anos. A Janete desenha as peças e eu as desenvolvo, mas tem o lado de fazer com que eu também possa realizar minhas próprias criações a partir das idéias, dicas e críticas construtivas dela, que se misturam às minhas idéias”, explica. A argila branca dos vasos da artesã é um espetáculo que dá identidade aos ambientes, não só de projetos de arquitetura de interiores em Pernambuco, mas de outras localidades do Brasil.

Luminárias expostas no espaço do projeto Interferências, durante a Fennearte em 2007 (Foto: Felipe Mendonça).

“Ela dá valor à nossa arte e isso é uma coisa que não se pode esquecer”, acrescenta. Mais de 10 peças desenhadas pela arquiteta e elaboradas por Lourdes vão participar da Fenneart 2007. Saindo da Zona da Mata Sul, voltamos para a Zona Norte da Região Metropolitana do Recife, Varadouro, Olinda. Na cidade dos bonecos gigantes, conversamos com Luiz Henrique de Barros (o conhecido artesão Nêgo de Olinda) que desde os 17 anos desenvolve trabalhos com madeira e pedra. Seu envolvimento profissional e, vale salientar, de amizade com Janete já acontece há mais de 5 anos. Nêgo disse que o trabalho em parceria rendeu muitos frutos e ainda vem fazendo história. “Janete me apresentou muitas questões técnicas, trouxe mais trabalho, me presenteou com mais conhecimento. E isso fez com que impulsionasse meu trabalho, incentivou ainda mais”, fala. Além de direcionar a arte do artesão para nichos sedimentados, como hotéis, teatros e empresariais, o Luiz Henrique, de 46 anos, também  participou in loco de alguns projetos, como um teatro em São Luis (MA) e um hotel na capital paulista. Entre esculturas, molduras e outros objetos de decoração, o reconhecimento do trabalho de Nêgo de Olinda está nos quatro cantos do Brasil. “É uma grande satisfação a parceria com Janete. A gente aprende muito e consegue produzir e ter um direcionamento de mercado mais específico para aquilo que a gente já sabia fazer antes”, pontuou.

A distância entre o bairro do Varadouro e do Amparo, em Olinda, é de duas ladeiras. E bem na Rua do Amparo, que se enche de folião durante o carnaval, o artista Roberto Lúcio nos conta sobre as suas “interferências” (como ele mesmo diz) nos projetos de ambientação de Janete há mais de 20 anos. Mas essa relação não começa, na verdade, apenas nessas últimas duas décadas. Roberto lembra que foi aluno de Borsoi, esposo de Janete, quando existia a Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco. O pintor, que também desenvolve peças de madeira, experimentou, pela primeira vez, o aço inoxidável como matéria-prima para os objetos do Hotel Piauí, em Teresina. Desenhos geométricos com o aço polido e sob tinta automotiva e até as sinalizações dos elevadores foram feitos pelo artista. “A idéia de utilizar o aço para o trabalho foi minha, mas as sugestões de Janete sempre acrescentam mais. A troca de idéias e o conhecimento que ele tem de causa é muito grande, enriquecedor”, afirma.

Roberto enfatiza que a Janete é fantástica porque está sempre antenada com as novidades e disposta a ser flexível com as mudanças de mercado, de conceitos. “Não podemos esquecer que ela também foi a primeira a utilizar na arquitetura de interiores o artesanato popular. A arquiteta não pára, está sempre produzindo e o melhor de tudo, tem uma grande capacidade de fazer amigos”, revela. Atualmente, o artista está trabalhando numa escultura em ferro de mais de 8 metros de altura no Empresarial Nassau, na Ilha do Leite, no Recife.

 

ENTRE MÃE E FILHOS

Janete e seus filhos (Foto: Ivaldo Bezerra)

Cláudia Santos, filha mais velha, conviveu com a mãe somente até os 12 anos. Mas tempo suficiente para experimentar e aprender um pouco da força que essa Janete Costa tem para repassar a quem esteja junto. “Para mim, ela sempre foi simplesmente uma ‘Pãe’. Mesmo sem querer, ela norteou a escolha profissional dos fi-
lhos. Costumo dizer que Janete é a pessoa mais forte que eu conheço”, revela.

Sempre foi uma mãe à frente dos filhos. Ela me fez ser diferente. Por causa dela, hoje tenho meu estilo. Cheguei a usar roupas de tecido pelo lado avesso. No começo, não gostava, mas depois que a moda pegava ou que ouvia elogios, voltava a ela e agradecia… Aprendi a valorizar a mentalidade dela, sempre à frente de tudo e de todos.

No início da minha vida profissional, só me sentia segura quando mostrava meus trabalhos antes à minha mãe. Depois que ela aprovava, seguia para apresentar o projeto aos clientes. Uma herança dela que vai ficar com os filhos para sempre é o gosto pelo ofício da arquitetura, a vontade de trabalhar incansavelmente.

Mário, filho que mora no Rio de Janeiro: “Nasci literalmente embaixo da prancheta. Sempre quis ser arquiteto, nunca me vi fazendo outra coisa se não projetos e plantas. Quando eu era pequeno, minha mãe me levava para casa dos clientes dela, já que ela não tinha com quem me deixar. E lá, em vez de procurar brinquedos, eu costumava brincar com o que estava na frente, ou seja, uma banheira, um jardim diferente. Então cresci aprendendo a admirar o diferente, o belo, o artístico.

A minha escola é a dela. Janete é a minha papiza. Mas tentei ir além e enveredei também por um outro lado.Hoje meu trabalho complementa o dela. Desenvolvoprojetos de iluminação e cenografia. Assumo que é muito difícil ser filho de Janete Costa. A responsabilidade é enorme, mas ao mesmo tempo é maravilhoso. Ela soube fazer o difícil papel de um educador: forneceu os instrumentos, mas conseguiu fazer todos os filhos andarem por conta própria. Ela tem uma qualidade muito relevante para uma mãe: sabe respeitar os espaços dos filhos, o estilo de cada um. Ela é envolvente demais e, por isso, acho que todos os seus filhos optaram por seguir seu caminho. Diante da luz que ela sempre irradiou ao fazer o que gostava, era difícil olhar em direção oposta, era difícil fugir da arquitetura.

Dos quatro filhos a única que não seguiu carreira em arquitetura foi Lúcia Santos, que enveredou pela arte e possui uma galeria no Recife, a Amparo 60. Nem por isso os laços profissionais com a mãe foram descartados. Muito pelo contrário. Afinal, arquitetura, ambientação, arte, artesanato, design… todas essas áreas são abordadas por Janete sempre se complementando em seus projetos. “Ela foi a matriz de todos os meus sonhos… Seu trabalho de curadoria de exposição consegue tirar o melhor dela, sua seiva”, disse Lúcia, que já participou inclusive de uma empresa que representa os trabalhos de Janete e mais uma vez assumiu: “somos grandes parceiras”.

A filha mais nova Roberta tem 13 anos de formada em Arquitetura, também 13 anos trabalhando lado a lado com a mãe, Janete. Além de ser um exemplo como pessoa e de vida, ser generosa, honesta e amiga em todas as horas, ela revela que Janete Costa é muito mais e nos conta em detalhes como isso é possível. “Minha mãe sempre nos ensinou a viver. ‘Não só a morar, mas a viver’, como o pai diz e assina embaixo”, argumenta. A convivência diária é um processo de aprendizagem, diz Roberta. Entre a flexibilidade nos momentos de desenvolvimento de projetos e a observação e compreensão de seu conceito de trabalho na prática, a filha companheira profissional confessa que há um conjunto de coisas que admira na mãe. “Trabalhar com família sabe como é: o puxão de orelha é maior, mas no final é gratificante”.

“Eu respiro todas as sensações de Janete. Quando está com um projeto, ela intervém no espaço, na obra, nos detalhes. A sua arquitetura do bem-resolver o estético e o funcional caminha junto com a sua exigência. Os fornecedores já conhecem o seu modo de trabalho. Sua marca é exclusiva porque também desenha móveis, peças, objetos. Ela sabe do que faz e entende do que faz. A composição é um ponto importante porque faz parte de uma trajetória que tem uma ‘finalidade’ (de finalização da obra) como um objetivo claro em seus projetos”, disse.

Roberta conta que nunca aconteceu de um trabalho não dar certo porque a Janete tem uma criatividade inesgotável. Sua relação com o que faz é, no mínimo, orgânico. “Ela dorme e acorda com o trabalho na cabeça. ‘Nunca deixe nada para depois’, tudo é para ontem. A Janete adianta prazos e quando acontece (que é muito raro) de dar um branco, a idéia surge num insite, do desenho com um pedaço de tijolo na parede levantada da obra, sua postura genial também conta com as facetas do improviso. Ela resolve, no final ela sempre resolve”, relata.

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“Cada projeto tem a importância referente ao seu próprio momento, inclusive na história de sua profissão”, explica Roberta. Entre alguns que marcaram a carreira estão o Pérgamo Hotel (primeiro hotel design do Brasil), o Marabar Hotel, o César Parque Olímpia e o César Business em São Paulo. “Tem algumas peculiaridades expressivas nessas obras, como o argumento em utilizar obras do artesanato popular na ambientação e no final conseguir que isso aconteça”, diz Roberta.

 

NA ARQUITETURA DE INTERIORES

Janete Costa em sua casa (Foto: Eudes Santana).

Ela pensa 100 coisas ao mesmo tempo

“Eu sentia uma empatia desde a época em que cursava a faculdade”, essas são as palavras iniciais de Maria do Loreto, durante a entrevista em seu escritório — um ambiente visivelmente perceptível dentro do universo (Erudito-Popular) vivido pela arquiteta ao lado de Janete Costa ou, como ela mesma faz questão de ressaltar: “aprimorado ao lado de Janete”.

Com sorriso estampado no rosto, ela fala de Janete como quem fala de uma mãe, a admiração tamanha não deixa espaço para a citação de um projeto destacável, pois em sua opinião, cada trabalho realizado em conjunto houve as suas particularidades e peso proporcional. Parceiras desde a época da faculdade, a oportunidade para o convívio surgiu a partir de uma vaga para estágio. Marida do Loreto ocupou o lugar de uma amiga, que deixara o emprego por motivo de viagem.

“Ela sabia da minha admiração por Janete e me informou sobre a sua desistência”, relata lembrando que após a conclusão do curso, continuou atuando como profissional. O convívio diário chegaria ao fim com a chegada de dois filhos e o acúmulo de responsabilidades que exigiam o próprio tempo e escritório.

Atuando até hoje juntas em projetos independentes, Maria do Loreto diz que o enriquecimento profissional adquirido a proporcionou o entendimento dos porquês. “Que eu gostava de Arte Popular isso já era fato, mas saber enxergar e compreender, saber equilibrar… Janete tem o prazer de dividir os conhecimentos, só que de duas palavras que ela diz, você tem que entender dez, não que ela economize palavras, é que seu pensamento é muito rápido. Ela pensa 100 coisas ao mesmo tempo, eu aprendi e desenvolvi isso com ela”, revela.

A Mãe Profissional

No decorrer desse trabalho, o sentimentalismo — que vimos muitos expressarem sem exageros de dizer até materno — é irrevogável. Mesmo com todos os cuidados para não se tornar piegas, os entrevistados conduziram despretensiosamente para um caminho difícil de trafegar. A admiração e o carinho foram tão intensos que as questões direcionadas para o profissionalismo acabaram recebendo respostas envolvidas pelo emocional dos entrevistados. É incrível como o caso das arquitetas Maria do Loreto e Mônica Paes que, sem terem trabalharam com Janete na mesma época, utilizaram as mesmas palavras durante a entrevista, entre elas: mãe profissional.

De uma época em que a base para a Arquitetura de Interiores era resumida em quatro meses de estudos na faculdade, as profissionais, que tiveram a oportunidade de ampliar seus conhecimentos através do período ao lado de Janete, destacam como uma de suas maiores qualidades, o seu desprendimento.

“Nunca houve a preocupação de não se passar algo por medo de perder. Tudo o que sei aprendi com ela! E, no entanto, nunca faltou nada a ela, pelo contrário, só acréscimos”, expõe Mônica. Frisando o trabalho, a convivência e a relação como de mãe e filhas, ambas as arquitetas, particularmente bem sucedidas, exprimem a mesma base. “Você nunca vai confundir o meu trabalho com o de Janete e o de Maria do Loreto, porém perceberá a mesma essência.”

A lição

“Quando você viaja, sua cabeça abre. Você tem que visitar feiras, estar atento às tendências e ao que está acontecendo, mas isto não significa que deva usar aqui o que está sendo usando em Milão da mesma maneira”, expõe o arquiteto Carlos Augusto Lira, outro discípulo de Janete Costa.

A lição, uma das que tornou Lira um profissional memorável, faz parte do conceito ser universal sem deixar de ser regional – grande mudança no movimento da Arquitetura de Interiores, que aprendeu quando ainda estudante-estagiário da arquiteta.

“Você não precisa ir muito longe para entender isso, o pernambucano mesmo é diferente do cearense e do baiano. É uma questão cultural, de valores, de costumes, de modo de vida. O pernambucano é mais fechado, já o cearense é mais receptivo, você tem que saber como eles recebem os seus amigos, onde estão fixados, até porque o cliente pode não entender, não perceber o enunciado. Você tem que captar a alma do cliente”, acrescenta.

O amadurecimento profissional também contou com a amizade de Janete e Borsoi, que foram padrinhos de casamento de Carlos Augusto, os enlaçando além do profissionalismo. Amizade que, juntos com outros profissionais, transformaram o modo de ver as artes regionais, valorizando a arte local.

 

A parceria plena 

ACÁCIO GIL BORSOI – marido, arquiteto e ex-professor:

Sou suspeito para descrever qualquer sentimento sobre Janete Costa. Afinal, posso dizer que a conheci no século passado, nos anos sessenta. São 38 anos de casados. Ela é uma mulher de grandes talentos que soube, durante toda sua carreira, fazer crescê-los cada vez mais. O talento é um só, que vem com a criatividade. E isso ela tem de sobra. Fico admirado com o poder que ela tem de criar coisas novas e o de transformar.

Mas o que mais impressiona é que diante de todo esse dom, ela é uma pessoa modesta. No íntimo, eu digo a ela: “você podia ser um pouco mais vaidosa”, mas nessas horas ela me ignora e simplesmente continua sendo ela.

Nos identificamos muito um com o outro. Não é a toa que a escolhi entre dezenas de alunas do curso de arquitetura. Quando brigamos, não passamos nem uma hora chateados, logo fazemos as pazes. Atualmente, o casal não pode ser formado por pessoas antagônicas, porque com a intransigência das pessoas modernas, elas não aguentariam passar mais do que quinze dias juntas. Por isso assumo que a compreensão que há entre mim e Janete é enorme.

Depoimentos Finais 

EDY ROLIM – empresária e uma das melhores amigas de Janete

Em poucas palavras posso definir a minha admiração por essa amiga de tanto tempo. Tenho o direito de repetir o que já disse há alguns anos: Janete é um poço de cultura, uma lição de humanidade. Há mais de 40 anos, Janete Costa ambientou minha casa em Fortaleza e nunca mais nos largamos. Trata-se de uma amizade forjada, mas que é uma verdadeira irmandade. Uma pessoa larga, uma riqueza de gente.

EUDES MOTA – artista plástico

O que mais me admira Janete Costa é o gosto que ela tem em valorizar e incentivar a arte pernambucana, no sentido mais profundo de sua raiz. Meu primeiro contato com ela, foi quando eu soube que ela havia indicado meu nome a uma galerista de Nova Iorque que tinha pedido uma indicação de um artista plástico que trabalhasse bem a madeira. Depois desse momento, a amizade só fez crescer. Cada encontro com Janete Costa é uma aula de pureza. Janete é uma das poucas pessoas que lê, sente e entende o que eu faço.

Diante de uma artista dessa magnitude, sempre muito modesta, eu fico até com vergonha de mostrar uma obra minha. Ela até que tenta esconder esse lado artístico dela, mas numa exposição como “Transparência”, o público a descobre, essa pessoa humana que tem por trás. Costumo dizer que embaixo de seu baú, existe um verdadeiro tesouro.

MARCELO SILVEIRA – artista plástico

Fico impressionado em perceber como ela consegue concentrar os vários talentos – de arquiteta, artista plástica, artesã – numa só pessoa. Ou melhor, ela consegue repassá-los a quem tiver ao seu lado e quem se interessar em aprender. Sentimentos que estão sempre a flor da pele em Janete são coragem e interesse pelo novo.

Janete foi muito importante como incentivadora no início de minha carreira. Conheço essa riqueza de pessoa há uns 12 anos, mas pelo aprendizado, parece que já faz 50.

FERNANDO AUGUSTO GONÇALVES – cenógrafo e diretor do Mamulengo Sorriso

Trabalhar com Janete Costa significa aprender. Ela é facilmente descrita por duas palavras: talento e generosidade. Minha perplexidade diante da exposição “Transparência” foi tamanha porque percebi que a transparência não está no vidro, nem no cristal, mas no ferro. É incrível como esta mulher consegue transformar o ferro, moldá-lo, domá-lo. Eu cheguei a chorar diante das peças. Sem exageros, eu a chamo do Niemeyer da arquitetura de interiores do Brasil. Janete não fica aquém de nenhuma profissional, nem do Brasil, nem do mundo. Ao contrário, ela nos representa e com muito orgulho. Esta mesma exposição podia estar em Milão e ser tão bem recebida como está sendo no Recife. Ela é uma mulher vulcânica, especial, que vem das profundezas da terra. Posso dizer que minha mãe, por ter me parido, me deu a visão, e Janete me ensinou a olhar.

Uma vez Janete quebrou um braço e quase enlouquecia durante o período em que esteve com gesso. Assumiu desesperada: “não posso passar muito tempo engessada. Eu penso com as mãos”. E é isso mesmo. Ela é uma artesã e uma artista plástica por natureza.

Além de uma pessoa extraordinária, Janete é uma mestra. Ela não tem metodologia didática certa, mas o jeito de ela ensinar me lembra os filósofos no tempo da Grécia Antiga, na Ágora. Assim como Sócrates, Janete é o mestre e o discípulo ao mesmo tempo. Ela escolhe para quem vai ensinar, só repassa as lições para quem ela sabe que vai levar adiante e vai dar continuidade ao aprendizado.

Durante minha convivência com ela, ao longo dos últimos sete anos, eu me identifico como o aprendiz de feiticeiro, mas no caso específico dela, ela não faz o feitiço, ela é o feitiço. Através dessa exposição, Janete está mostrando ao povo que além de cultura popular ela é a contemporaneidade humanizada. É num momento como esse que Pernambuco pode reconhecer o talento da pessoa humana que ela representa. Uma pessoa única, singular.