Redescobrindo a arquitetura de Janete Costa

“Para o bem das novas gerações é preciso se redescobrir Janete. A profissional completa, o viés humano, o papel da cultura e da compreensão do que se passa na relação entre o cliente e aquele que vai projetar o seu sonho”.

Marco Antônio Borsoi (Foto: Lucas Oliveira/Revista Sim!)

A sentença proferida pelo arquiteto Marco Antônio Borsoi dá uma dimensão da importância de Janete Costa para a arquitetura brasileira e o quanto ainda ela precisa ser “descoberta” pelas novas gerações.

“Sempre me impressionou como Janete conseguia cativar os clientes. Construir a relação e fazê-los parte de seu universo e de seu próprio crescimento. Chegar às soluções de projetos surpreendentes e atingir uma dimensão maior que a satisfação de uma simples ambientação. O projeto acima dos modismos. A lição de superar os vícios, as limitações e as imposições do estilo. A cultura como elemento de equilíbrio e de mediação entre a condição humana e o estar no mundo”, acrescenta.

Para ele, filho de Acácio Gil Borsoi e enteado de Janete, é fascinante a convicção com que Janete redescobre o caráter arcaico e mítico da arte popular e reintroduz em seus projetos contemporâneos – assim mesmo, no presente. “E, ao mesmo tempo, o seu amor pelos grandes designers atemporais, nos mobiliários, objetos e luminárias. Lembro, por exemplo, dos belíssimos objetos utilitários dos finlandeses Arne Jacobsen e Tapio Wirkkala de seu apartamento em São Paulo, uma perfeita convivência com os objetos da cultura africana, a pintura, a escultura moderna e a arte contemporânea”, pontua Marco Antônio.

O arquiteto diz, ainda, que toda essa experiência pode ser sintetizada em três momentos marcantes de trajetória profissional de Janete: as residências e apartamentos, a hotelaria, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, e os espaços museográficos, incluindo a curadoria de grandes exposições de arte popular.

“O sentido de completude entre Janete e Acácio, meu pai, é a contribuição decisiva, sem dúvida. Borsoi mais cerebral e Janete mais emocional. Depois descobri que Janete não era tão só emoção e Borsoi não só razão, mas uma síntese essencial para o ato criador. Sobretudo, a maior influência de ambos, foi a exigência de encontrar a coerência interna e imutável da criação arquitetônica”, encerra.

Pesquisa – A arquiteta e pesquisadora Andréa Gáti conheceu Janete Costa quando ela já havia falecido. Em 2011, quando escrevia a sua monografia de especialização de Design de Interiores.  “Foi um desafio escrever sobre Janete, pois muito se falava dela no meio, mas não havia nada escrito. Me impressionou muito a personalidade do seu trabalho, facilmente reconhecido e que inspirou muitos colegas, virou a maior referência na arquitetura de interiores pernambucana, reconhecida nacionalmente. Foi por causa da tão falada “Escola Janete Costa” que decidi estudar sua obra, foi o tema da minha monografia”, lembra.

Andréa Gáti (Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação)

Apesar de não ter conhecido a arquiteta pessoalmente, Andréa diz “ter convivido bastante” com ela. Durante dois anos de especialização e mais dois de mestrado entrevistei seus familiares, amigos, colegas de profissão, funcionários, ex-estagiários, e além disso participei da construção do seu Inventário, da organização do seu acervo pessoal não só de projetos, tendo acesso ao seu “infinito particular” (título de um artigo que escrevi sobre Janete Costa), posso responder que convivemos intimamente. E a grande característica dela que me encantou foi sua autonomia em relação a parceria com um dos maiores nomes da arquitetura moderna pernambucana, Acacio Borsoi. Janete trabalhou sempre de forma colaborativa com Borsoi. Seus trabalhos se complementavam. Ela não se deixou ofuscar por ele”.