Prédios contam histórias

Pouca coisa é capaz de contar uma história tão bem, quanto os prédios antigos, que carregam em suas estruturas, memórias de uma vida inteira. Eles são testemunhas de momentos marcantes de várias épocas e que há séculos sobrevivem através de processos de restauração que permitem com que suas características originais sejam preservadas e que apenas poucos detalhes sejam mudados para se adaptar as necessidades atuais. É o caso do conjunto de construções da Fundação Joaquim Nabuco(Fundaj), o Francisco Ribeiro Pinto Guimarães, em Casa Forte e o Delmiro Gouveia, em Apipucos, ambos em Recife. Eles foram construídos no século XIX e fazem parte da arquitetura clássica. As obras de restauro duraram dois anos e tiveram como foco a reforma nas suas estruturas internas.

“Todo processo de restauro começa com o conhecimento da edificação: saber como ele foi construído, quais foram as técnicas utilizadas, materiais que compõe sua edificação, sua história, as mudanças e intervenções que sofreram ao longo do tempo e a partir daí pode-se começar o projeto. Toda intervenção é criteriosa, discutida em equipe e também com os órgãos de fiscalização quando o edifício é tombado”, explica o arquiteto da Fundaj, Cristiano Borba.

O casarão Francisco Ribeiro, que fica na sede da Fundaj, viu as madeiras que vedam suas portas e janelas serem trocadas, assim como as das cobertas e a estrutura da escada. A construção se destaca pela sua imponência e luxuosidade. Possui um piso delicado formado por pedaços de madeira encaixados, um teto de gesso rebuscado de detalhes e a escada digna de uma cena de filme. “Sua intervenção foi mais cuidadosa e delicada. Ele é registrado pela lei municipal de preservação da Prefeitura do Recife, transformando-se assim, em um Imóvel Especial de Preservação, ficando impedido de ser descaracterizado da sua forma original”, esclarece Cristiano. O imóvel abriga hoje galerias de arte.

A restauração realizada no Delmiro Gouveia, ficou focada no seu primeiro andar. O objetivo foi trabalhar ao máximo para deixá-lo mais funcional ao público, já que ele vai abrigar a Vila Digital da Fundaj e a Coordenação Geral de Estudos da História Brasileira (Cehibra). Peças de madeira do assoalho foram trocadas, além da fiação elétrica. Houve também a instalação de banheiros, elevador e uma plataforma de locomoção para garantir o fácil acesso.

“ Para preservar é necessário intervir. E para isso é necessário ter conhecimento sobre os materiais utilizados. A ideia principal é manter a autenticidade, tanto na composição, como na dos materiais construtivos e a estética utilizada. O que vai nortear é a preservação do material original, esse é o primeiro passo, depois é a adequação do edifício ao seu novo uso”, explica o arquiteto da Fundaj, Ronaldo L’Amour. Na obra os profissionais estão sujeitos a vários tipos de surpresas, como a descoberta de um tipo de madeira que não era aparente, por exemplo. Hoje os arquitetos já estão dando início a um plano de conservação para evitar as restaurações. “O ideal é acompanhar, realizar a manutenção e continuar inspecionando. Essa seria a condição ideal”, defende Cristiano.

Para quem não sabe, as edificações receberam esses nomes, devido aos seus primeiros moradores. Francisco Ribeiro era um aristocrata do açúcar e Delmiro Gouveia, foi um influente comerciante de peles e couros do Recife. Outro bem da Fundação é o edifício Ulysses Pernambucano, que desde 1980 não passava por reformas. Ele é conhecido como a Fundaj do Derby, que abriga o famoso cinema da Fundação. Após a reforma, que só deve ser finalizada no começo de 2017, a construção terá uma espaço mais moderno, com janelas abertas para o rio Capibaribe.