PE terá representante na Bienal de Veneza

Com o objetivo de desmistificar a arquitetura como obra de arte intocável, o escritório O Norte, dos arquitetos Bruno Lima, Chico Rocha e Lula Marcondes, projetou a Escola Novo Mangue que traz um refinado planejamento estrutural, se tornando instrumento de modificação de uma região. Localizada na comunidade do Coque, construída nos anos 2000, a escola é um dos 15 projetos selecionados para representar o país na 15ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza, que, este ano, traz como tema “Reporting from the front”, único representante do Nordeste no Pavilhão do Brasil, que busca evidenciar histórias de pessoas que lutam e alcançam mudanças das grandes cidades do País, conquistando arquitetura como solução ao planejamento do território.

O projeto surgiu da ONG Centro de Cidadania Umbu-Ganzá, que atuava com crianças em idade de risco, que captou, juntamente com o UNICEF, recursos da Rede de TV e Rádio de Luxemburgo para construção de um equipamento público a ser definido pela coletividade. “Foi feito um estudo no local que sentiu a necessidade de ter um equipamento público que atendesse crianças do ensino fundamental. Com isso, foi feita uma seleção com dez escritórios de arquitetura do Recife para se eleger o projeto que mais se encaixasse nas expectativas, tanto dos moradores quanto do governo”, explica Bruno. Coube à Prefeitura da Cidade do Recife a doação de um terreno de 1.700 m², localizado às margens do braço morto do Rio Capibaribe, que servia como um grande esgoto condominial, em uma área estigmatizada pela “desova” cadáveres diariamente.

Desafiados a converter a área em um espaço interessante e útil para a comunidade, os arquitetos partiram três premissas básicas na concepção da proposta: dar ao Rio um protagonismo no novo cenário a ser construído, alocando as áreas livres e de recreação voltadas para ele, se aproveitando de uma área de mangue à míngua; desenvolver um equipamento de qualidade com alta performance ambiental dentro das grandes restrições orçamentárias impostas pelo concurso, com iluminação e ventilação natural; além de criar um produto arquitetônico resistente ao vandalismo, tendo em vista a difícil realidade social do Coque e seus altos índices de criminalidade.

“Para atender aos requisitos, usamos materiais de construção à base de argila – tijolos e telhas – amplamente utilizados a fim de atingir a melhoria no conforto térmico do edifício. A ausência de janelas foi compensada por ‘rasgos para se ver o céu’ dentro das salas de aula com um jardim interno que ilumina e permite a troca de ventilação natural. Também optamos por rotacionar alguns tijolos nas paredes, criando uma superfície porosa, fazendo com que haja maior circulação do vento nas salas de aula”, explica Bruno.